O andarilho da Savassi
Trôpego, ombros curvados, escorando-se ora em vidros blindex luxuosíssimos de construções de última geração, ora deslizando as mãos trêmulas no lodo escorregadio de irregulares muros de antigos casarões – do tempo em que o horizonte da recém-inaugurada cidade das Alterosas ainda era bela e não conspurcado nem obscurecido pela pesada fumaça que se desprende, às toneladas, de chaminés criminosas e de escapamentos de veículos automotores; tampouco tinha dilacerado aquilo que, por ironia do destino, passou a ser, recentemente, seu símbolo maior -, vem o Mauro Cruz, descendo (a esta hora, quando todos os gatos são pardos) pouco movimentada rua Paraíba, ali, no coração da Savassi.
Hoje, felizmente para mim, e infelizmente para a circunvizinhança, o Cruzeiro venceu, e o Mauro não se cansa de repetir o seu grito de guerra, nosso velho conhecido: -“Cruzeiiiiiiro!” “Cruzeiiiiiiro!”
Fico feliz por dois motivos: primeiro porque o meu time do coração venceu, envolvendo seu arquirival com uma superioridade indiscutível; segundo, e principalmente, porque este é um dos raro motivos que fazem o andarilho da Savassi sorrir. Solta foguetes (que algum cruzeirense lhe dá escondido), toma cachaça (que outro cruzeirense lhe dá escondido) e volta a entoar o seu canto preferido, desta vez a plenos pulmões > “Zêêêêêêêêro!”
Mas se hoje não é dia de jogo, ou, pior ainda, é, e o Cruzeiro perdeu, o célebre personagem (pelo menos no Bar do Bigode, na Padaria do Amintas e adjacências) torna-se lacônico. E, para proteger-se, passa a tachar de lacônico todo aquele que puxe conversa. Fulano é lacônico. Beltrano é lacônico. Cicrano é lacônico. Palavra bonita, difícil, importante e, acima de tudo, altamente eficaz. Ninguém conhece o significado, mas respeita. Parece significativa, nobre. E funciona como escudo protetor eficiente para aqueles dias em que o cruzeirense das sarjetas do ponto comercial mais sofisticado de Belo Horizonte (excluindo-se, naturalmente, os shopping centers) não está afim de conversar, seja lá por que motivo.
À tarde, porque de manhã ele não dá as caras, a caixa de engraxate é sua fachada. Se engraxar dois sapatos por dia é muito. Um bocejo aqui, um cochilo ali... e finalmente o corpo celeste inspirador de poetas, seresteiros, namorados e boêmios desponta (o Mauro é uma criatura da noite).
Às vezes ele some. Dias, meses. Depois volta. Mais aprumado, menos lacônico. Geralmente, depois da vitória do seu time de coração. E o ex-sargento da Aeronáutica torna a cantar o seu hino predileto.
Receio que um dia, depois de uma de suas costumeiras sumidas, o peregrino da zona sul não retorne mais. É que as madrugadas da Savassi ficarão mais tristes!
Guilherme Coutinho Nunes da Silva, Lagoa Santa, 48, advogado, meu pai
Escrito por Lucas Amaral às 14h38
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