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Segundo Tostão

Tostão foi um jogador excepcional. Ao lado de craques como Pelé, Jairzinho e Gerson conquistou a Copa do Mundo de 1970. Aos 26 anos, o craque foi obrigado a parar de jogar futebol devido ao um descolamento da retina, fato ocorrido em um jogo pelo Cruzeiro quatro anos mais cedo. Mas Tostão é um ser humano especial, com uma capacidade e força de vontade sem iguais. Nosso craque, ídolo maior da história da Raposa, cursou medicina pela UFMG, se tornando um responsável e respeitado profissional. Com suspeitas de que o Cruzeiro teria enganado o Vasco, vendendo um jogador com problemas, o Dr. Eduardo deixou o futebol com tristeza, chateado com situações a que um jogador de seu calibre não deveria estar sujeito. Afastou-se então do futebol durante 21 anos. Isso mesmo, 21! Durante a Copa de 94 (EUA), tornou-se colunista e comentarista da TV Bandeirantes, e novamente mostrou seu talento. Nascia ali um dos melhores analistas esportivos do país. A competência com que nos servira no futebol e na medicina, agora nos prestigiava na área jornalística.

Apesar do desrespeito sofrido na época em que deixou o Cruzeiro, Tostão sempre teve grandes amigos na Toca da Raposa. E sempre foi um fiel torcedor do time azul. Analisando seu livro (Tostão, Dórea Books and Art), gostaria de comentar algumas de suas sugestões que considero importantes o Cruzeiro hoje.

Segundo Tostão:

    • "O talento sem organização é um vazio, desperdício".

Muitos especialistas consideram elenco azul celeste um dos melhores do país. Possui jogadores técnicos, jogadores rápidos, outrora consagrados. Então, qual o problema com o time, que não consegue obter ritmo e jogar bem? A falta de organização e disciplina tática. Está na cara, nossos laterais não sabem defender. Gabriel não ganha uma bola na corrida, enquanto Fábio Santos se desespera ao tentar cobrir um jogador que está perdendo o costume de antever o passe, o Ricardinho. Está estampado como em capa de revista, Léo Silva não joga em esquema com dois volantes, pois este não ocupa espaços, não dá combate e o que é pior, brinca onde não deve. Émerson Ávila percebeu e o colocou como camisa 10. Perfeito! A desorganização tática é gritantes, precisa ser consertada urgentemente. Penso que com Renan e Magrão ou com a utilização de três volantes, arrumaríamos este quadro. Quanto aos nossos meias, falta criatividade. "A disciplina sem criatividade está próxima da mediocridade". O medo de errar faz com que bons jogadores, tentem o fácil, o óbvio, com medo de errar. E outra, dos meias que o Cruzeiro tem, apenas Leandro Domingues é armador e por isso deve jogar. Para estruturar-se um time, necessita-se de um armador e um meia atacante. Ponto final.

    • "Tinha porém uma grande autocrítica, sempre pensando que eu podia jogar melhor"

Todos vêem que há algo errado, mas se contentam com pouco. Vencem o Tupi aqui, discutem sobre a construção do estádio por lá, mas os problemas sempre estão rondando. Humildade, reconhecer que o conjunto não vem funcionando, é qualidade fundamental ao jogador. Acho que era isso que faltava ao nosso excelente goleiro Fábio. Treinar os quesitos em que se tem maior dificuldade e admitir a falha não é vergonha. André Luís é outro. Até mesmo aqueles que se destacam precisam melhorar naquilo que lhes é ineficiente. Araújo, por exemplo, precisa melhorar muito no trabalho em conjunto. É um bom jogador, porém não sabe utilizar os companheiros nos momentos adequados. A ausência da autocrítica é comum em times de superstars, como no Real Madrid, mas lá, quem tem crise vai para a rua.

    • "Nós os endeusamos (os técnicos) nas vitórias com grandes elogios e criticamos duramente nas derrotas".

Treinador não é Deus. Também não faz mágica. É preciso entender que a culpa não é totalmente do treinador. Crucificá-lo é fácil, mas concordemos que os jogadores são quem podem mudar a partida. A ajuda psicológica faz parte da função de um treinador. Creio que o que falta no Cruzeiro é uma ênfase, algum objetivo concreto, algo que os induza a conseguir a vitória a qualquer custo. Depois, no embalo, é só seguir o ritmo da música e dançar. Temos um exemplo claro do outro lado da lagoa, nos nosso rivais atleticanos, que não têm jogadores do porte dos nossos, mas se empenham para mostrar que ainda são um time respeitável como na década de 80. No nosso time, os objetivos são pessoais, como artilharia ou se mostrar para algum time europeu.

    • "O craque não é o que erra menos, e sim o que faz as jogadas decisivas. "

Avisem isso aos nossos meias urgentemente! Estão se tornando jogadores comuns e não são. Parecem afoitos, não ousam. É preciso exigir que os jogadores não passem só de lado. Tentar é preciso, mas com consciência. "Nem sempre quem treina muito joga bem, mas quem não treina nunca vai atuar bem, com exceção d gênios como Didi". Como o Cruzeiro não tem Didi, é preciso treinamento individual, principalmente com aqueles que não entendem muito bem a sua função tática, casos de Gabriel e Léo Silva.

    • " Entendi para sempre a diferença do real e da cópia. O que parece craque, mas não é. O que é é."

O Cruzeiro tem um craque em seu elenco. O menino Guilherme será um grande jogador, de seleção brasileira. Tem muita capacidade de evolução, diferentemente de Fred, Sóbis e Love, que são bons jogadores, porém limitados. Espero que Dorival saiba aproveitá-lo da melhor forma possível, no meio ou no ataque.

Esta é apenas uma pequena parte dos ensinamentos do mestre Tostão que pude utilizar para explicar a atual situação. Sei que muito já falaram sobre esta hipótese, mas gostaria de recolocá-la em questão. Tostão, um ídolo do Cruzeiro, um excelente analista técnico e tático e físico, não seria um treinador promissor? Há quem diga que ele não aceitaria a proposta. Eu duvido.



Escrito por Lucas Amaral às 22h20
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