Mesmo com tantos problemas pela ala esquerda o treinador Paulo Autuori ainda tem dúvidas quanto à promoção de Anderson, um dos grandes destaques na conquista da Copa São Paulo de futebol júnior, para os profissionais. O lateralzinho joga muito! Acho que o técnico já recebeu incentivos demais! Os dois recém contratados Fábio Santos e João Victor se machucaram e o time precisa de peças. É isso ou improvisar Élson ou Sandro. Ai não!
O nascer de um cruzeirense
Ele ainda se lembra da primeira vez que foi ao Estádio Magalhães Pinto. Chovia levemente e o cheiro de terra e asfalto molhado lhe recordavam as tardes na roça. O mutismo habitual se perdia entre perguntas. Queria saber se a energia que o contagiava era fruto da ansiedade. O pai rejuvenescia ao seu lado e, juntos, pareciam ter a mesma idade. Na mente o orgulho de ter completado a "maioridade" para ir ao campo e, no corpo, o uniforme completo do Cruzeiro, inclusive o meião, presente de Natal.
Já no estádio, deliciava-se com a ventania no rosto, a mesma que fazia tremular todas aquelas bandeirolas azuis sendo vendidas. A mesma que premeditava chuva forte. E aquele misterioso escudo estrelado lhe instigava. Como era bonito!
"Finalmente!", pensava o garoto, que esperara por aquele momento durante seis longos anos, todos de sua vida. Para ele, apoiar o seu time era uma honra e uma obrigação. Além disso adorava contar histórias aos colegas. Dizia-lhes algumas lorotas que não mais as seriam depois que foi ao Mineirão.
O pai olhava para o pequeno satisfeito, e sentia-se mais ainda. Era uma dívida paga com todo prazer do mundo. E, no fundo, também sabia que todas as vezes que por ali passasse, o cobrador agiria. A pior cobrança é a de um filho, não dá para fazer fiado.
Enquanto rumavam às arquibancadas o pai pensava o quão responsável ele era por tanta glorificação. Por tantos aniversários e natais tentara, e em nenhum deles recebera tantos sorrisos e "obrigados" como recompensa. Achava graça ao se lembrar das tantas idas ao zoológico que terminavam em breves passagens no campo de treinamento do Cruzeiro. Breves que se tornaram longas, na medida em que o menino, ainda tão novo, preferia cada vez mais cedo visitar a Toca da Raposa aos leões e macacos-prego. Ah, se a esposa soubesse! Mas aquele segredo, tão inocente mas tão importante, estava seguro nas mãos de dois frenéticos torcedores e tão bons amigos. Às vezes os pais cometem crimes para tornarem-se heróis.
E aquele homem, o qual segurava forte a sua mão, sorria, orientava e lhe contava histórias, era realmente o seu herói, embora não tivesse capa ou superpoderes.
Depois de um tempo, ir a Toca virou rotina. As desculpas variavam. Às vezes iam ao Country Club ou ao Haras Paraíso, mas o desfecho era sempre o mesmo. Muitas vezes, bastava ao menino passar em frente e observar o enorme símbolo pintado na parede. Aquele escudo lhe chamava, lhe seduzia. Talvez por curiosidade, por querer saber o que havia por trás daquele pequeno universo de cinco estrelas. E nas bandeiras tremulantes do estádio, lá estavam!
O moleque delirava! Grandes, pequenas, cintilantes, longas e com diferentes desenhos. O azul da flâmula que carregava se misturava a outras, formando um imenso mar de escudos, um mar de estrelas. "Que maravilha!".
Apesar das tentativas dos tios, o preto e branco dos rivais não lhe atraía como o azul celeste. Lhe parecia chato, como alguns dos filmes que seu avô assistia.
E foi justamente um Atlético, o de Três Corações, convenhamos, menos famoso, que lhe daria o ímpeto de iniciar uma paixão fanática. Uma chama forte o seu coração aquecia. Pensava ele que cada chama, dentro de cada coração torcedor era responsável pelo clima quente e amistoso que existia em tão agradável ambiente.
O pequeno se misturou na multidão. Pulava, vibrava, tremia. Sorria. Perdia-se nas rimas, mas encontrava ali um amor. Achou no hino a explicação para tantas dúvidas. Aquele clube realmente morava em seu coração! Naquele momento, os triunfantes tambores da Máfia não eram nada comparados à latinha e à caneta com a qual batucava. O Mineirão estremecia, era goleada cruzeirense. A cada gol um abraço, ora do pai, ora dos novos amigos. De qualquer forma isso lhe aconchegava .A emoção lhe encarnou. Estava enamorado.
Os tios podiam desistir. Nascia ali um cruzeirense. Nascia ali um feliz torcedor.
